A história política recente (dos últimos 2.549 anos), de modo geral, reforça a tese de que uma grave crise de representatividade desestabiliza governos, mercados e as relações sociais; aprofundando a pobreza, a ignorância, a dor... e segue a perverter relações, quando o truque dos homens, sistematicamente, sugere uma lógica predatória de uns para com outros, em ideologias macabras e doutrinas várias; a maioria delas antagônicas, opostas e, ainda, perigosamente belicosas. Algo assim, mais para "balaio de lobos" do que para "balaio de gatos", numa espécie de antropologia negativa do homem-massa.
Desculpe se a minha "régua" está meio fora da escala usual. E talvez duplamente fora, dirão alguns modernos. Afinal, dois mil anos é tempo demasiadamente longo pra se chamar algo de "recente", principalmente quando ligado a política. E outra: é uma régua "desgraçada" a minha que de tão tendenciosa só tem medida pra tragédia, dirão outros. Mas, não se apresse. Sim, se esforce por seguir lendo. Tragédias tem também coisas muito estimulantes e inspiradoras, principalmente aos moldes não perenes da GREGA onde morte é MORTE, justiça é JUSTIÇA, injustiça é INJUSTIÇA. Sobretudo, há ainda a causa imanente, e não transitiva, de todas as coisas: DEUS, que preside atento - e muito - a assembléia dos deuses.
Mas por que os números quebrados - 2.549 anos - fazendo referência ao passado distante dos dias atuais?
R.: É que por essa época viveu Heráclito, filósofo grego, um dos grandes antes de Sócrates. E foi por esse tempo que ele escreveu a obra "Sobre a Natureza", obra esta dividida em três discursos: um sobre o universo, outro sobre política e ainda outro sobre teologia. Conta o historiador Diógenes que Heráclito fez uma dedicatória e depositou o livro no grande templo de Ártemis (uma das sete maravilhas do mundo), notoriamente ali porque lugares como aquele guardavam grandes tesouros e permitiam apenas a privados o acesso ao que se guardava. Dizem que Heráclito foi intencionalmente obscuro "afim de que só se aproximassem dele - do livro - aqueles que podiam fazê-lo, e de que nenhum tom fácil não o expusesse ao desprezo do vulgo"1. Ele que já havia dito: "Por que quereis arrastar-me por todos os lados, ó iletrados? Não para vós escrevi, mas para quem pode compreender. Um vale para mim cem mil, e nada a multidão."
Informações mais recentes dão conta de que "até ao tempo de Plutarco e Clemente de Alexandria, ou até antes, o
pequeno livro de Heráclito estava disponível na sua forma original a
qualquer leitor que o desejasse consultar"2. Diógenes mesmo diz: "o livro adquiriu tal fama que produziu seguidores da sua filosofia que foram designados de heraclitianos."
Umberto, meu ilustríssimo xará - ele tem Eco e eu não... embora eu tenha o "h" coisa que ele não tem... mas isso não altera o fonema -, no seu livro Diário Minimo, pergunta primeiro e atira depois:
"ONDE IREMOS PARAR?"
Agora o tiro:
"Mas Heráclito desapareceu, e seu livro foi aberto a todos os símios sabichões que desejem aproximar-se dele através de resenhas e das notas de pé de página. E seus discípulos são mais sabidos do que ele. O que significa que a multidão venceu Heráclito, e nós assistimos hoje, entristecidos, ao triunfo do homem-massa. Se nosso ânimo ainda não se aridificou, basta percorrer a ágora, em um dia qualquer; se a angústia não te embargou a garganta (mas a alguém ainda é dado esse precioso bem?), e se, vítima do mimetismo mundano, não te associares aos euforicões que rodeiam o último filosofeiro de passagem por alguma praça pública, poderás ver aqueles que foram outrora os homens da Grécia,..."1
1- ECO, Umberto. Diário Mínimo. Rio de Janeiro Rj: Record, 2012. 403 p. Tradução de Joana Angélica D'Avila e Sérgio Flaksman.
2- Kahn, Charles. The Art and Thought of Heraclitus: Fragments with Translation and Commentary. London: Cambridge University Press, 1979. 1–23 pp.

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